O Silêncio, a Saudade e a Terra
A Jornada de Yoshio 田尻芳雄 e Kanae 田尻かなえ no Solo de Campina Grande do Sul
A história do Park Novo Oriente não nasce de um conto de fadas, mas da vida real, marcada por renúncias, alianças de sobrevivência e uma resiliência austera que atravessou o oceano. É o legado de Yoshio e Kanae, dois pioneiros que transformaram a disciplina e o trabalho em raízes profundas no solo de Campina Grande do Sul.
A Aliança entre o Mar e o Solo
Antes de ser um encontro entre duas pessoas, a união das famílias foi uma aliança entre duas províncias e duas culturas distintas. De um lado, Kumamoto, uma terra de solo fértil e vocação agrícola, produtora de arroz e grãos. Do outro, Nagasaki, a província do mar profundo.
Através do comércio marítimo da época, peixes secos trazidos por pescadores de Nagasaki eram trocados pelos grãos de Kumamoto. Foi nesse fluxo contínuo de trocas que os caminhos das famílias se cruzaram.
Nagasaki: O Encontro entre o Oriente e o Ocidente
Kanae vinha de Nagasaki — uma cidade com uma identidade histórica única no Japão. Por séculos, Nagasaki foi a principal porta de entrada da cultura ocidental no país e o grande berço do cristianismo japonês. A cidade era marcada pela presença de templos e igrejas históricas, moldando um povo acostumado à fé, ao diálogo com o Ocidente e à convivência de diferentes tradições.
Essa herança ocidentalizada de Nagasaki criou, historicamente, um elo invisível e profundo com a fé e os costumes do Brasil. Mesmo mantendo suas raízes nas tradições espirituais orientais de sua família, Kanae cresceu sob a influência dessa atmosfera de tolerância e acolhimento — uma semente de conexão entre Nagasaki e a terra brasileira que a acolheria décadas depois.
O Casamento Arranjado e a Renúncia
A união de Yoshio e Kanae não nasceu de um namoro moderno, mas do costume tradicional do Omiai. Um irmão da família no Japão agiu como o mediador. Sem que os noivos participassem da decisão, a união foi selada entre os mais velhos.
Para Kanae, a decisão trouxe um peso invisível. Ela deixou em Nagasaki não apenas a sua terra, mas o carinho por outro alguém e a vida que idealizava. No entanto, por respeito à família e com a coragem típica das mulheres de Nagasaki, ela cumpriu o seu dever. Encontrou-se com Yoshio no Japão, formalizaram a união e embarcaram no navio America-maru — ele, um homem de disciplina inflexível; ela, uma mulher forte — rumo a um país desconhecido.
O Clarão e as Cartas no Butsudan
Kanae já carregava no peito o trauma de ter sobrevivido ao clarão da bomba atômica em Nagasaki, em 1945. No Brasil, quando questionada ao longo da vida sobre o passado, ela preferia o silêncio. Olhava as colinas e dizia apenas:
"Aqui está bem."
Com o tempo, a família compreendeu o peso desse "estar bem". Muitas vezes ela era vista ao lado do Butsudan (oratório), escrevendo cartas para o Japão. Escrevia, relia e as rasgava. Reescrevia e rasgava novamente. Havia dores, saudades e sentimentos do passado que ela preferia não enviar, guardando-as em um silêncio que, por vezes, se transformava em desconfortos físicos que a medicina não explicava — a marca velada da saudade da terra natal.
Os Filhos: Sementes de Novos Caminhos
Dessa união nasceram quatro filhos. O primogênito, que enfrentou o oceano ainda no ventre de Kanae durante a travessia, recebeu o nome de Yoshikane — uma poética fusão dos nomes dos pais: Yoshio (Bondade/Virtude) + Kanae (União/Realização), simbolizando a harmonia que o tempo e a rotina construíram entre o casal.
A disciplina e o sacrifício dos pais permitiram que a geração seguinte se desenvolvesse e ocupasse espaço em diferentes áreas da sociedade. Entre os filhos, os caminhos se diversificaram:
- O primogênito Yoshikane permaneceu ombro a ombro com os pais no campo, dedicando-se a desbravar a terra e sendo a peça fundamental na construção e consolidação do Park Novo Oriente.
- Os demais filhos seguiram carreiras próprias, atuando em setores diversos como a área de tecnologia da informação e banco de dados governamental, o setor de contabilidade e gestão de saúde no Centro-Oeste do país, e a área industrial.
Do Porto de Santos ao Rigor no Paraná
Ao desembarcarem no Porto de Santos, Yoshio e Kanae eram esperados por um irmão de Yoshio, que já estava no Brasil. Dali, seguiram para o norte do Paraná, onde trabalharam por anos como meieiros.
Yoshio era um homem marcado pela extrema honestidade, mas também por um rigor severo no trabalho. Para ele, não existia tempo ocioso. Mesmo nas entressafras, quando a incerteza pairava sobre o mercado, ele exigia que todos estivessem no campo plantando. O trabalho era uma regra moral inegociável — embora fizesse questão de respeitar os dias de descanso da família.
Com essa disciplina, acumularam recursos. Uma das safras mais marcantes foi a de amendoim, comercializada em Curitiba. Porém, a boa-fé de Yoshio foi testada por golpes financeiros — incluindo um aplicado por outro compatriota —, que fez a casa da família em Curitiba ir a leilão. Para não perder o teto da família, Yoshio e o filho arremataram o próprio imóvel no leilão, pagando cerca de duas vezes o valor da casa. Anos mais tarde, com os reajustes da inflação do período, conseguiram vender o imóvel cobrindo os custos e saindo no "zero a zero", preservando a honra e o patrimônio sem maiores ambições.
O Solo Definitivo e a Sabedoria no Fim da Vida
Com o apoio de um avalista, adquiriram a área onde hoje se ergue o Park Novo Oriente em Campina Grande do Sul, estabelecendo-se definitivamente quando o primogênito já era adulto. A terra acolheu anos de lavoura intensa e, com o tempo, a propriedade também desenvolveu atividades ligadas à piscicultura e ao processamento de peixes, mantendo viva a rotina de trabalho incansável de Yoshio e dos que o cercavam.
Foi somente na etapa final da vida, a partir dos 65 anos, que o rígido Yoshio permitiu-se desabafar sobre a jornada. Com a reflexão de quem olhava para trás, ele admitiu ter forçado demais a barra no trabalho ao longo dos anos, passando a aconselhar os descendentes a desacelerarem, usarem mais a cabeça do que a força bruta e valorizarem o descanso.
Campina Grande do Sul abraçou essa família sem saber que, em seu solo, caminhava uma filha de Nagasaki — herdeira de uma cultura de fé, superação e resiliência —, um agricultor cuja honestidade moldou a terra e filhos que expandiram esse legado. O Park Novo Oriente permanece como o fruto vivo dessa história de paz.